O Inverno chegou...
O frio penetra intensamente na pele, arrepia e faz com que as mãos se queiram aquecer uma à outra no conforto de um casaco bem apertadinho, quente.
As folhas deslizam e penetram nas pedras dos passeios, fazendo parte integrante deles. Uniram-se. Os pés deslizam sobre elas, escorrendo em pequenas porções de desequilíbrio.
A rua deixa de cheirar a nada para cheirar a tudo, cheirar ao sabor que a nossa memória permite abraçar. E sabe tão bem sentir o quentinho dos cheiros a encherem o nosso pedaço de gente de tudo. É hora de levar tudo isso para dentro.
Sim, está frio, chove, apetece ficar de manta no colo e com qualquer coisa quente nas mãos... qualquer coisa que se possa querer sempre!
18 de dezembro de 2009
9 de dezembro de 2009
Sandra
Ela não era bonita, tinha até uma certa rudez no rosto, no corpo, um pouco sem forma, quadrada, mas as suas ancas torneavam as mesas de modo orquestrado e sedutor. Servia à mesa no meio de piropos dificilmente envergonhados e cheio de tentações, mas também desprezíveis e ruidosos... "oh Sandra, mais meio jarro de vinho" ... "oh menina, então isso sai ou não sai?!" ... não há ar cansado, há olhar alheado, distante, não sei se sonha, se quer, se constrói um paraiso fora das portas daquela cave carregada de fritos e cheiro a pataniscas de bacalhau. Não deve voar muito alto, as frigideiras, pratos que guincham e talheres que se cruzam prendem-na aos olhares daquela gente que, dia após dia, pede os mesmos pratos, olha para a sua camisa branca, pálida, rugosa, por onde se sente o soutien de textura redonda e torneado por bolas vermelhas, dispersas no olhar guloso de quem fica mais atento àquele decote.
Realmente não era bonita, e o cabelo preso ao alto, com as pontas reviradas e fugitivas, deixavam-na ainda mais com ar de menina dispersa nos pedidos de quem a prende àquele lugar... "oh Sandra, traz lá a continha, sim?" ... "São 5,75€, se faz favor".
4 de dezembro de 2009
há dias em que não apetece nada sair da cama e saltar para o mundo.
lá dentro, no meio dos lençóis está quentinho e apetece o aconchego daquilo que nos tapa, que nos fecha por umas horas e nos cobre com o peso do nada.
hoje a casa ficou vazia, virou-se mais uma página e lá tive que me levantar do quentinho.
lá dentro, no meio dos lençóis está quentinho e apetece o aconchego daquilo que nos tapa, que nos fecha por umas horas e nos cobre com o peso do nada.
hoje a casa ficou vazia, virou-se mais uma página e lá tive que me levantar do quentinho.
20 de novembro de 2009
e do frio se faz quente...
E eis a roupa a cair no chão, depois de se enamorar da pele e roçar em cada pêlo por onde pássa. Arrepia e faz frio, mas a roupa continua a cair. Não é atirada para o canto, num rompante, descai vagarosamente para se conseguir senti-la. Faz-se presente... faz com que tudo demore todo o tempo que não existe.
12 de novembro de 2009
Palavras
E lá estavas tu, a olhar para mim. Sentia a tua respiração bem perto, entrecortada e só minha... Sim, minha!
E Tu... o teu sorriso embrenhava-se na doçura de ti mesmo e confundia-me de vontades e peripécias únicas...
Éramos palavras fundidas em textos, em letras desenhadas, em poemas de candura que adivinhavam o futuro.
E foi tão bom descobrir novas palavras... adoçaram a praticidade de tudo.
E Tu... o teu sorriso embrenhava-se na doçura de ti mesmo e confundia-me de vontades e peripécias únicas...
Éramos palavras fundidas em textos, em letras desenhadas, em poemas de candura que adivinhavam o futuro.
E foi tão bom descobrir novas palavras... adoçaram a praticidade de tudo.
4 de novembro de 2009
Bairro

São bairros que respiram, afagam-nos o cabelo e guicham-nos à memória com os sorrisos das crianças na rua, com as brincadeiras e zangas quando a bola rola e foge para o fundo da quelha.
São bairros de presença, que nos fazem querer habitar neles para sempre... naquele prédio amarelo torrado, de janelas verdes, vasos de sardinheiras vermelhas e piriquito na gaiola à janela.
27 de outubro de 2009
Conversa
Sabes aquelas igrejas enormes, que ecoam por todos os seus recantos e emitem estalares em cada passo que dás, sem saberes bem de onde provém esse som? Pois bem, um dia destes, entrei numa igreja dessas.
Os meus saltos altos ressoaram "pocs-pocs" no chão marmoreado, que devem ter incomodado quem queria parar para conversar em silêncio, mas não conseguia. Eram barulhos secos mas altos, tal como a distância dos meus passos, que me levaram para um daqueles bancos longos, corridos, com cheiro a cedro. Sentei-me... teimei em manter as pernas cruzadas, inocentemente uma junto à outra enquanto a cabeça tombava ligeiramente para trás elevando o meu queixo ao alto... tornei-me altiva. Fechei os olhos e quis também conversar. Tudo olhava para mim, com aqueles olhos vazios de muito, adorados por velas de som fingido a crepitar aos seus pés.
Mantive-me imóvel enquanto nas minhas costas o som ondulante e metálico das moedas mergulhavam na caixa.
Oremos então.
19 de outubro de 2009
búzio

Cheirava tanto a mar, que o barulho das ondas ficava camuflado por aquela mistura de rodófitas e sal. A janela aberta, de cortinas corridas, deixava entrar a luz que chegava aos olhos e tornava-me mais atenta, mais desperta, mais entregue. O azul da imensidão não se misturava comigo mas bailava nos meus olhos de forma estonteante. Saí lá para fora... para sentir melhor, para me aproximar do que via. E foram as tábuas, por baixo dos pés - passadeiras intensas de madeira recortada por espaços de vertigens - que me conduziam por caminhos de descoberta e de proximidade com o som camuflado que se derretia na areia da praia. E foi assim, ficar sentada e deixar que o mar me inundasse os sentidos.
16 de outubro de 2009
Ir
nunca vou onde não quero ir.
mas acontece, às vezes, revisitar lugares, repisar a mesma calçada e dançar ao som da mesma música.
nesses momentos apetece-me desenhar traços do que vejo, mas nunca saem bem... pois a música continua a ser a mesma, a rua continua a ter as mesmas pedras, o corpo é que se desenha de forma diferente.
mas acontece, às vezes, revisitar lugares, repisar a mesma calçada e dançar ao som da mesma música.
nesses momentos apetece-me desenhar traços do que vejo, mas nunca saem bem... pois a música continua a ser a mesma, a rua continua a ter as mesmas pedras, o corpo é que se desenha de forma diferente.
9 de outubro de 2009
8 de outubro de 2009
Boca do Corpo
Aqui é ainda escuro e deixei de gemer para mim. Soltei a boca do corpo e deixei-a mover e voar bem mais alto, em gritos pousados na almofada riscada.
A anca torce-se numa torção da procura e a mão procura a textura da pele na totalidade do toque que agarra, que espreme, que possuí, que aperta a garganta.
Sabe bem sentir o peso do corpo cobrir-nos completamente, numa fusão a dois quase perfeita, onde a perspicácia do movimento ganha actuação. Somos dois actores, num palco construido à medida dos nossos braços abertos, dos nossos corpos que se amassam e espremem.
Falta ainda tanto para o fim e o melhor de tudo é esperar.
6 de outubro de 2009
O vento ralha
Parece que o vento quer ralhar hoje...
... ralhou com o meu cabelo logo de manhã, despenteou-o
... ralhou com a água do rio, baloiçou-a
... ralhou com a copa da árvore lá no quintal, arrancou folhas
... ralhou com a água que caíu do céu, baralhou-a
Continua a ralhar, estou a ouvi-lo
... ralhou com o meu cabelo logo de manhã, despenteou-o
... ralhou com a água do rio, baloiçou-a
... ralhou com a copa da árvore lá no quintal, arrancou folhas
... ralhou com a água que caíu do céu, baralhou-a
Continua a ralhar, estou a ouvi-lo
28 de setembro de 2009
Al caxete

O vento vai batento na pele, em chapadas de frio que entorpecem, e o reflexo do sol incide sobre o copo meio cheio de água, inclinado sobre a mesa apoiada na irregularidade das pedras da calçada.
Grasnam, lá ao fundo, penas voadoras, brisas que serpenteiam a superfície do rio e o acastanhado das ondas. Batem cada uma delas nas pedras da margem, enamoram-se delas e visitam-nas a cada oito horas - a saudade é usurpadora, quando a paixão teima em fugir.
A ponte emerge, qual senhora permanente das águas e os barcos fazem-lhe a corte, ancorados junto ao cais da igreja. Igreja que badala a cada união, tornando as ruas flores e gritando bem alto até às salinas.
Volta a haver sal, a água vai secando e os flamingos cor-de-rosa mudam de poiso.
21 de setembro de 2009
Para o ano há mais

Cheira a carvão, cheira à carne que roda no espeto e à febra que se deita na brasa. O carvão fuma-se em cada dentada que uma bifana permite.
Sim, ontem fui à festa!
Ora era barraca que se apropriava da rua, expondo as suas vísceras, ora era o barulho dos fritos, que salpicavam a cara do fartureiro, com os dedos besuntados de açucar e aroma do Sri Lanka.
Pregões não haviam, apenas o lamúrio das gentes que se cruzavam entre balões bem tesos de encontro ao céu e música caprichosa dos gigantes de metal, que continuam a querer chocalhar quem se senta neles para mais uma voltinha.
E foi isso mesmo o que eu fiz... mais uma voltinha, mais um respirar de cheiros que ficam na casa das memórias, mais um mergulho na ebulição de quem não se conhece, mas que vai ao mesmo que eu. À festa.
Para o ano há mais, este ano o rio já se calou, o santo voltou para o altar e os foguetes rebentaram todos no ar.
15 de setembro de 2009
Até os barcos esperam...
Esperar é difícil enquanto o sol se põe e a procissão passa pela estrada da rua direita, com o santo lá no alto.
"Santo da casa não faz milagres", mas os barcos ancorados à margem acreditam, quando ele desce do andor e despe o manto abençoando as águas onde eles esperam.
Quem não tiver embarcação acompanha o compasso ao longo da margem do rio, assistindo de perto a sensação religiosa da fé, tal como acontece nos últimos momentos da crença de qualquer barco.
9 de setembro de 2009
09/09/09

Os dias, os números e os estados de alma parece que se fundiram todos hoje, formando a possibilidade de 9 momentos importantes, para o mundo e outros para quem voa por entre o mundo em forma de palavras coloridas...
1828 - Nasce Liev Tolstói, escritor russo
1884 - Foi inventado o cachorro quente
1948 - Independência da Coréia do Norte
1956 - Elvis Presley aparece pela primeira vez
1975 - Nasce Michael Bublé, cantor
1976 - Morre Mao Tse-Tung
1981 - Morre Jacques Lacan, psicanalista
9 Set - Dia do Veterinário
2007 - Roger Federer conquista pela 4ª vez consecutiva o US Open nos Estados Unidos
09/09/09 - o resto de tudo, de todas as palavras que ainda vão ser escritas, de todas as cores que vão ganhar tons, dos sons que se vão deixar transportar pelas ideias e de todos os momentos, que a memória não vai deixar escapar...
8 de setembro de 2009
3 de setembro de 2009
1 de setembro de 2009
Pintarolas

Abre-se uma janela ao diálogo, à conversa acelerada e aos beijos com sabor a chocolate... beijos pegajosos e demorados, na mesma extensão que uma caixa destas drageias permite.
Pintamos o momento com estes sabores que a saliva dissolve e a boca destrói no instante em que elas se desfazem na boca.
26 de agosto de 2009
Verão
Há Verões inesquecíveis.
Verões quentes em que o corpo se despe...
Verões em que gelados lambuzam a boca e são partilhados...
Verões onde a areia queima os pés, mas insiste-se em continuar caminho...
Verões em que a maresia enche os pulmões...
Verões com dias de chuva...
Verões onde há música pela noite fora...
Verões em que o comboio é o nosso companheiro...
Verões em que viajamos pelos livros...
Verões em que nada importa... para além de nós...
Este Verão vai acabar, sem ele ficam as lembranças...
23 de agosto de 2009
Entra-me num sonho, por favor

Entra-me hoje num sonho e faz dele o que quiseres. Pinta as estrelas deste meu quarto que vive a chorar na escuridão e devolve-lhe as cores que alegram o meu sorriso.
Hoje, de noite, pela noite a fora, vamos trocar palavras e frases fechando a porta dos nossos sonhos apenas um ao outro.
Entra, não batas, não faças barulho, vem apenas para o meu sonho e fecha-te lá dentro comigo.
19 de agosto de 2009
17 de agosto de 2009
Origami

Parabéns...
Parabéns a ti...
16 de agosto de 2009
Unir sinais
Enquanto dormia, os teus olhos pousavam vontades no meu corpo. Senti-os desfazerem-me em pedacinhos de vontade, em prazeres de momento.
Unes os meus sinais, mapeando o meu Ser nos teus próprios olhos e descobres o tom da minha pele, as curvas do meu rosto, o desenho dos meus ossos.
Gosto de te sentir aí, a olhar-me... a fazer de mim tua enquanto eu não estou atenta. Rendo-me. Prende-me então à tua imensidão de loucura e vela-me com um beijo frutado só nosso. Só teu.
15 de agosto de 2009
12 de agosto de 2009
Bolas de Berlim
Calcei os chinelos e naquele flip-flop abandalhado saí porta fora.
O quente abrazava-me o corpo, de forma a que sentia o calor ocre a queimar-me os braços, o pescoço, as costas.
Molhei o corpo de sal, que me sabia a refresco e deixei-me envolver pela espuma venusiana que me chegava aos pés.
Sentei-me. Fiquei à espera de um qualquer toque leve, que me chamasse de volta. Ninguém me tocou. Fiquei lá.
Olh´a bola de berlim... com creme, sem creme...
Olh´a batata frita...
Apetece trincar aquele conforto do bolo e lambuzar a boca de açucar à medida que os torrões se desfazem entre cada lambidela no creme. Lambuzei-me. Envolvi-me sofregamente naquela textura e deixei todo o meu corpo prová-la.
Anda para aqui, Ricardo Manuel!
Mas o Ricardo Manuel já tinha fugido para a rebeldia das ondas, enquanto o balde vermelho se enchia de areia e água clarinha.
O burburinho foi acalmando, dissipando-se, e eu... eu transpirei, deixando o acastanhado da pele suar de contentamento.
10 de agosto de 2009
Incenso...
Pauzinho de cheiros que deixa cair pó cada vez que é elevado.
Acendo o isqueiro e aproximo-o de ti. Acendo-te. Tornaste-te uma pequena brasa na incandescência do cheiro.
Pousei-te e deixei-te arder. Sumiste-te.
O teu fumo contorceu-se numa dança finita de envolvência sensual que me seduz.
Deixei-me levar, respirando-te. Tiraste-me definitivamente para dançar.
7 de agosto de 2009
Gente

Hoje enterrei-me no meio de gente.
Gente de várias cores no meio de tecidos com texturas berrantes.
Pregões de preços diminutos soavam e ecoavam entre bancas oferecidas a quem as contornava, a quem as tocava e pousava os olhos.
Senti-me perdida. Não me achei. Muito menos me falei. Vagueei.
Terra batida que me empoeirou os dedos dos pés e me fez arrastar o andar, com imensa ânsia de parar, me encostar e revolver. Não o fiz, sou envergonhada.
Os barulhos cruzavam-se, fundiam-se numa ladainha absorvente de boca, boca despida de formalidades. Venha Ver... Oh menina!!!
Não fui, preferi sentir o sol quente a queimar a pele à medida que o andar fugia-me dos pés.
A 3 euros, a 3 euros, só hoje!
E amanhã, já não há pó nos pés, nem o cheiro a fumo no tecido, nem o ranho da criança que rebola nos estrados de madeira?
Amanhã vai continuar a haver os mesmos diálogos sem interlocutor, que se dissipam no meio da fruta por lavar e das azeitonas a boiarem nos baldes azuis.
Amanhã volto lá. Pode ser que me encontre.
6 de agosto de 2009
para ti - III
eu - sonha comigo... vá...
tu - não preciso de sonhar, ja aí estou...
Ou acreditas mesmo que o tempo e a distância são elementos com força suficiente para nos separar? O aqui e o agora não existem para quem tem moradas fixas no coração. Todos aqueles que sonham e se lembram com exactidão do que sonham, são viajantes do etéreo e do sobrenatural. Não me sentiste ontem na tua cama, a acariciar as curvas da tua anca, a beijar-te nas costas e no ombro?... Suspirei ao teu ouvido, mas sonhavas com outra coisa qualquer... sonha tu comigo... não acordes tanto...
eu - deita-te aqui debaixo e deixa-te ficar de olhos abertos. Sente o quentinho por baixo dos lençóis. Vê-me por baixo da lua a embalar canções de amor.
tu - não preciso de sonhar, ja aí estou...
Ou acreditas mesmo que o tempo e a distância são elementos com força suficiente para nos separar? O aqui e o agora não existem para quem tem moradas fixas no coração. Todos aqueles que sonham e se lembram com exactidão do que sonham, são viajantes do etéreo e do sobrenatural. Não me sentiste ontem na tua cama, a acariciar as curvas da tua anca, a beijar-te nas costas e no ombro?... Suspirei ao teu ouvido, mas sonhavas com outra coisa qualquer... sonha tu comigo... não acordes tanto...
eu - deita-te aqui debaixo e deixa-te ficar de olhos abertos. Sente o quentinho por baixo dos lençóis. Vê-me por baixo da lua a embalar canções de amor.
5 de agosto de 2009
para ti - II
tu - pois é...
Aguardei uma palavra por baixo da chuva enquanto nada mais acontecia senão cair... a chuva e eu.
Mas essa palavra tardou a surgir, ao contrário da chuva no céu.
Assim, molhado de roupa e seco de conversas, enviei uma espera, um aviso de demora, um ponto de referência, que te diz "Já aqui estou". Apaga a tua ausência, diz-me um sítio; que eu vou...
eu - aqui não chove...
O tempo dispersa e a luz aparece, ainda envergonhada por entre os sorrisos de quem vejo.
Sei que sabes que também tu sentes esses sorrisos, também tu sentes a luz que aquece a minha pele e me contorce a cada instante de prazer.
Sítio?... pertinho de ti, sempre.
Aguardei uma palavra por baixo da chuva enquanto nada mais acontecia senão cair... a chuva e eu.
Mas essa palavra tardou a surgir, ao contrário da chuva no céu.
Assim, molhado de roupa e seco de conversas, enviei uma espera, um aviso de demora, um ponto de referência, que te diz "Já aqui estou". Apaga a tua ausência, diz-me um sítio; que eu vou...
eu - aqui não chove...
O tempo dispersa e a luz aparece, ainda envergonhada por entre os sorrisos de quem vejo.
Sei que sabes que também tu sentes esses sorrisos, também tu sentes a luz que aquece a minha pele e me contorce a cada instante de prazer.
Sítio?... pertinho de ti, sempre.
4 de agosto de 2009
para ti
eu - hoje o sol confundiu-se com a minha vontade, aquecendo também a espera, a essência da ânsia. Coisas que se sentem quando, encostada a uma parede alta se fica à espera de alguém, e somos surpreendidos por um beijo no pescoço repenicado e guloso, daqueles que dá vontade de saborear. Os olhos agoram olham-se entre si e tudo parece firme e nosso, só nosso.
tu - aquilo que é nosso os olhos não vêm e envergonha o sol. Não fizeram ainda paredes suficientemente altas e ásperas para te separar dos meus beijos. Nossos beijos... quente e húmidos, presentes e ausentes...
eu - gostava de te beijar por baixo do sol, quando a água faz cócegas nos pés e o frio do arrepio percorre o tronco. Gostava. Confundir a minha mão com a areia quente e sentir os grãos entre os dedos, a envolvência da presença... à medida que o aperto se torna mais próximo... sempre.
tu - a pele quente e as gotículas de suor que escorrem preguiçosas até ao teu umbigo. Não deve haver pressas quendo se faz amor. É um acto divino...
tu - aquilo que é nosso os olhos não vêm e envergonha o sol. Não fizeram ainda paredes suficientemente altas e ásperas para te separar dos meus beijos. Nossos beijos... quente e húmidos, presentes e ausentes...
eu - gostava de te beijar por baixo do sol, quando a água faz cócegas nos pés e o frio do arrepio percorre o tronco. Gostava. Confundir a minha mão com a areia quente e sentir os grãos entre os dedos, a envolvência da presença... à medida que o aperto se torna mais próximo... sempre.
tu - a pele quente e as gotículas de suor que escorrem preguiçosas até ao teu umbigo. Não deve haver pressas quendo se faz amor. É um acto divino...
Requerer
Hoje recebi uma carta.
Vinha fechada e o papel não deixava perceber as letras.
Rasguei o topo, quase rasgando toda a carta. Não tive cuidado.
Lá dentro, vinham cheiros e perfumes de vontades, que há muito não cheirava.
A curva das letras mapeava os meus olhos de requerer para além da caneta, para além da tinta que tinha sido escrita.
Gosto de receber cartas, de mexer no papel, abrir e ler o que não me dizem ao ouvido, naquele diálogo perfeito de cada frase no texto.
Fico inebriada e volto a ler, mais uma vez.
31 de julho de 2009
29 de julho de 2009
Chá
Fui ferver água e deitei numa caneca.
Enchi.
Mergulhei a saqueta do chá.
Deixei repousar.
Aqueceu-me as mãos.
Apertei ainda com mais força.
Levei à boca e bebi.
Refrescou-me.
Partilhei bolachas, momentos, conversas...
A amizade ferveu como a água e era tão bom sentir-me quente...
Enchi.
Mergulhei a saqueta do chá.
Deixei repousar.
Aqueceu-me as mãos.
Apertei ainda com mais força.
Levei à boca e bebi.
Refrescou-me.
Partilhei bolachas, momentos, conversas...
A amizade ferveu como a água e era tão bom sentir-me quente...
descalça

Hoje descalcei-me e fui ouvir o barulho da água. Cheirava a flores, cheirava a terra, cheirava ao vento que me batia na cara e se mesclava com o meu cabelo, perfumando-o de notas do campo.
Estiquei o corpo e abracei a luz... pequeninos pontos que flutuavam entre as folhas verdes das enormes árvores por cima de tudo o que era possível eu ver.
Fundi-me no chão, voltei a alongar-me e senti o corpo a interiorizar-se e a fazer parte dos sons, do ar, de si mesmo... há muito tempo que ele não se devolvia e envolvia nestas posturas de permanência. Deliciei-me no doce da respiração... foi bom....
27 de julho de 2009
Neva

Hoje nevou em Lisboa.
Em cada rua fazia frio e fechei ainda mais o corpo. Fui descendo a rua da misericórdia e sentei-me num banco branco, no miradouro. Sentei-me perto de mim e deixei-me lá ficar, enquanto tentava aquecer as mãos uma contra a outra. O tempo parecia ter parado, só as pessoas atrás de mim se mexiam, desnorteadas e paralelas.
Fixei o olhar no castelo. Não o vi. Pareceu-me longe, longe de Lisboa, longe da neve que a cobria. Voltei a descer, voltei a levantar-me do meu banco. Não deslizava, parecia que flutuva naquela brancura no chão, era fofo, aconchegante. Apetecia continuar a andar, continuar a caminhar por entre toda aquela maciez. E continuei.
Passei por cheiros de sabores e deliciei-me admirada com a dança do frio e do cheiro, soberba, enebriante... dançaram comigo... mais uma vez, deixei-me envolver... pelo frio que sentia, e que o casaco teimava em não cessar, pelo esplendor do branco e pela calma em mim mesma.
É bom quando a natureza nos sussurra.
21 de julho de 2009
Baú
Gosto de baús... sou egoista e não gosto de partilhá-los. Tenho muitos.
Ficam quase sempre fechados, num canto do quarto, acumulando poeira por cima, à volta, por baixo, em todo o lado.
Num deles, a tinta parece que salta dos desenhos que construíu e, das poucas vezes que é aberto, as dobradiças fazem barulho. Estão velhas, usadas, antigas e gastas. Paciência.
Gosto de trazer de lá de dentro emoções das quais já não me lembrava, coisas perdidas e esquecidas, mas que sabem bem manter pertinho, para que as saudades não me deixem.
Acho que hoje vou abri-lo. Apetece-me sentir saudades.
Ficam quase sempre fechados, num canto do quarto, acumulando poeira por cima, à volta, por baixo, em todo o lado.
Num deles, a tinta parece que salta dos desenhos que construíu e, das poucas vezes que é aberto, as dobradiças fazem barulho. Estão velhas, usadas, antigas e gastas. Paciência.
Gosto de trazer de lá de dentro emoções das quais já não me lembrava, coisas perdidas e esquecidas, mas que sabem bem manter pertinho, para que as saudades não me deixem.
Acho que hoje vou abri-lo. Apetece-me sentir saudades.
20 de julho de 2009
Will You Let Me Romanticize?
Deixas-me romantizar as tonalidades desta espera absurda, sempre que o vento não escorre pelos meus braços?
Tens um gosto bom, sabes ao cheiro que sinto quando afundo o meu rosto no teu pescoço e agarro os teus caracóis fechando a mão. O cabelo é suave e escorrega nos dedos... foge...
Apetece então, romantizar mais um pouco... mais uma espera, mais alguém que se levanta... mais palavras flutuam como tentativas falhadas da realidade.
Gosto de pensar que romantizas comigo, aí desse lado... que me ouves em cada um dos meus pensamentos. Sopra vontades, tolera fraquezas e decisões. Muda de tom, de página, de momento e recomeça, novamente... romantizando...
Tens um gosto bom, sabes ao cheiro que sinto quando afundo o meu rosto no teu pescoço e agarro os teus caracóis fechando a mão. O cabelo é suave e escorrega nos dedos... foge...
Apetece então, romantizar mais um pouco... mais uma espera, mais alguém que se levanta... mais palavras flutuam como tentativas falhadas da realidade.
Gosto de pensar que romantizas comigo, aí desse lado... que me ouves em cada um dos meus pensamentos. Sopra vontades, tolera fraquezas e decisões. Muda de tom, de página, de momento e recomeça, novamente... romantizando...
15 de julho de 2009
fotografia?

fotografa-me...
faz de mim o teu melhor ângulo e dispara... dispara... dispara...
fragmentos de imagens consolidadas num ensejo, numa divergência de olhar... num instante de um momento arrefecido com a máquina... dispara... cobre em mim a tua vontade, a tua perspicácia e mecaniza-me no papel... num papel brilhante, envolto nesta dança de sintonia... nesta melodia do disparo... clic... já está?
10 de julho de 2009
Cantinho de mim

Neste cantinho de mim... sou despida... sou mulher.
Princesa das estrelas que adora malas grande, onde o mundo todo termina e cabe.
Sou mulher sem todas as amarras e levezas que devora pedaços de fruta e deixa o sumo morno escorrer pela abertura da camisa e contornar o peito. Mulher que gosta do cheiro maduro da polpa e explora e cospe cada um dos caroços que se mistura com a saliva.
Saliva que se troca em cada beijo dado, cada vez que as mãos apertam o corpo e a vontade corrói a carne.
Acumulei muito de mim...
9 de julho de 2009
festinhas de gato

Bolinha quente que se aninha no colo e faz cafofo de alma e aconchego de corpo.
1 pata, 2 patas, 3 patas, 1 corpo inteiro que estaciona e devolve momentos de solidão - conversas restritas a um monólogo partilhado num ronronar equilibrado de toque.
Toque no pêlo, na cabeça, nas bochechas, no corpo inteiro, percorrendo até ao fim da espessa cauda, num misto inesquecível.
São tardes inteiras, onde o queixo se deixa repousar e os olhos, semi-cerrados, vislumbram a a união a dois.
Unhas que se cravam a cada passagem de prazer, a cada turra gulosa.
Aquece-me...
Vibra...
6 de julho de 2009
enrolar cabelo nos teus dedos

dedos que se enrolam em fios unidos de vontades e caem sobre as costas de forma desordenada, desgrenhada e plena.
é bom sentir cada vez que puxas o meu cabelo, ao enrolar madeixas no teu dedo... tocas ao de leve e eu sinto-o num todo.
não pares, é muito bom...
é bom sentir cada vez que puxas o meu cabelo, ao enrolar madeixas no teu dedo... tocas ao de leve e eu sinto-o num todo.
não pares, é muito bom...
caracóis e porções com cheiro a framboesa, que terminam no teu toque.
1 de julho de 2009
ilha d´água

porque as ilhas de areia continuam a ser feitas quando o mar envolve a permanência... o medo continua a ser real.
Pega em mim ao colo
29 de junho de 2009
do alto de uma montanha...
Do alto de uma montanha vi o mundo, vi o mar, vi-te a ti... fiz o amor...
Pedacinhos de coisas boas uniram-se, deram as mãos e saborearam juntamente com o vento a pele húmida e salgada, feita vestido.
Sussurros encostaram-se ao pescoço e os olhos elevaram-se e rasgaram-se em cortinas de vontades... ficámos quietos um no outro, onde o vazio do improviso das palavras feitas poetas viveram.
montanha secreta que a nós guardas
28 de junho de 2009
pintor

Tela feita de cor espessa e viva para pintor alegrar de aromas, persistentes, complexos e de grande finura... onde sobressai o cheiro da fruta muito madura, harmoniosamente conjugada com notas de madeira e de campo. O toque na tela é denso e revela a mesma complexidade e harmonia, manifestada pelo ligeiro relevo a potenciar grande proximidade, apresentando um final de boca rico e prolongado, persistente e para sempre.
25 de junho de 2009
Às vezes faz mais frio...
Sim, às vezes faz mais frio e sinto muito frio... vá, encosta-te a mim e deixa que os pés aqueçam e as bochechas se tornem mais cor-de-rosa.
Este frio faz-me ficar quieta, sem conseguir que as pernas andem e a vontade, essa, fica adormecida no meio de tanta imobilidade... sim, porque o frio congela vontades, congela desejos, congela-me... congela-nos...
Isso, bem encostadinho... para não fazer frio, para não adormecer... para não perder o que pode estar para vir e deixar de viver o que o frio arrefece.
Este frio faz-me ficar quieta, sem conseguir que as pernas andem e a vontade, essa, fica adormecida no meio de tanta imobilidade... sim, porque o frio congela vontades, congela desejos, congela-me... congela-nos...
Isso, bem encostadinho... para não fazer frio, para não adormecer... para não perder o que pode estar para vir e deixar de viver o que o frio arrefece.
2 de junho de 2009
Segredo é Segredo... não se quebra!
Segredo é querer contar e a vontade ser derrotada pelo optimismo de um melhor segredo para partilhar. Sim, porque partilhar faz de cada um dos segredos momentos íntimos, de prazeres conjugados sobre a verbalização da palavra.
Sabe bem ouvir segredos e guardá-los numa caixinha de vontade, aberta pela chave da partilha cada vez que precisamos de nos sentir guardadores de tesouros e companheiros de felicidade em cada sorriso devolvido ao segredar.
27 de maio de 2009
Tempo... depois de tanto tempo
Tempo... depois de tanto tempo, o tempo faz falta.
...
arqueia o sorriso
Tempo... depois de tanto tempo, a paixão volta.
...
é bom sentir-te novamente pela 1ª vez
Tempo... depois de tanto tempo, a chuva sela a terra.
...
cheira bem
Tempo... depois de tanto tempo, olho para os meus sinais.
...
saudades de mim, pequenina
Tempo... depois de tanto tempo, é bom revisitar lugares.
...
são memórias de recordações
Tempo... depois de tanto tempo, gosto de sentir o cabelo comprido nas costas.
...
é suave
Tempo... depois de tanto tempo, volto a abrir um livro.
...
cada letra torna-se palavra e a imaginação contrói um mundo
Tempo... depois de tanto tempo, volto a acordar.
...
e soube-me tão bem os lençóis lavados
Tempo... depois de tanto tempo, sabe bem continuar aqui.
...
amanhã... hoje já é tarde
...
arqueia o sorriso
Tempo... depois de tanto tempo, a paixão volta.
...
é bom sentir-te novamente pela 1ª vez
Tempo... depois de tanto tempo, a chuva sela a terra.
...
cheira bem
Tempo... depois de tanto tempo, olho para os meus sinais.
...
saudades de mim, pequenina
Tempo... depois de tanto tempo, é bom revisitar lugares.
...
são memórias de recordações
Tempo... depois de tanto tempo, gosto de sentir o cabelo comprido nas costas.
...
é suave
Tempo... depois de tanto tempo, volto a abrir um livro.
...
cada letra torna-se palavra e a imaginação contrói um mundo
Tempo... depois de tanto tempo, volto a acordar.
...
e soube-me tão bem os lençóis lavados
Tempo... depois de tanto tempo, sabe bem continuar aqui.
...
amanhã... hoje já é tarde
25 de maio de 2009
Vermelho
De fogueira acesa persiste o meu encanto de sarapicos de instantes...
Crepita ao chegar longe... ao alto da chaminé...
Sem fumo, com cheiro... com cor e sentimento.
Queima cada uma das suas tonalidades que envolve...
Na negritude do espaço onde faíscas de vermelho se soltam.
Crepita ao chegar longe... ao alto da chaminé...
Sem fumo, com cheiro... com cor e sentimento.
Queima cada uma das suas tonalidades que envolve...
Na negritude do espaço onde faíscas de vermelho se soltam.
21 de maio de 2009
Frio
Só porque o frio da saudade agora foi grande... apeteceu-me estar aqui... no meio de uma multidão cega de sons que as contornam e de melodias que também as fazem sentir frio.
Apeteceu-se provar a intensidade do calor numa prova muito doce pois o aconchego está longe e as mãos suam... suam de não se tocarem...
4 de fevereiro de 2009

Quantas vezes paramos no momento a pensar em nada, a pensar no vazio que se apoderou das nossas reacções... quantas vezes?
É como quando viajamos de carro, no banco de trás, e encostamos a cabeça à janela embaciada e vemos fragmentos de imagens a passarem a grande velocidade por nós... imagens fuscas, mesmo ali do outro lado da porta, mas que não nos pertencem... vazio novamente.
No momento em que deitamos a cabeça na almofada e repousamos o corpo na cama... quando o cansanço é tanto e a cabeça não fica quieta, mergulhada em imagens, em episódios, em vontades... ficamos vazios... no meio de tudo.
É como quando viajamos de carro, no banco de trás, e encostamos a cabeça à janela embaciada e vemos fragmentos de imagens a passarem a grande velocidade por nós... imagens fuscas, mesmo ali do outro lado da porta, mas que não nos pertencem... vazio novamente.
No momento em que deitamos a cabeça na almofada e repousamos o corpo na cama... quando o cansanço é tanto e a cabeça não fica quieta, mergulhada em imagens, em episódios, em vontades... ficamos vazios... no meio de tudo.
3 de fevereiro de 2009
Pausa
Há momentos de pausa... de tranquilidade onde a multidão absorve o espaço e o tempo não respira.
Sei que sinto a falta... falta daquele momento tranquilo em que o instante fica em stand-by e a vontade é desleixada contrariando a acção...
Voltei... abracei a pausa e trouxe-a até lado nenhum, só para poder recomeçar... um pouquinho mais atrás do que no fragmento onde parei...
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